
Ao entrar na porta principal vi todos os hospedes sentados em volta duma grande mesa deliciando-se num banquete de pombos. Pombos vermelhos de sangue, mortos pelos próprios garfos de prata antiga que dr. Lirico encomendou para o jantar.
Dom Romano se fazia ajudar por um pontudo crucifixo de ouro maciço para penetrar na barriga da ave e tirar suas entranhas.
- Que mandem entrar as prostitutas! - grita o dr. Lírico impressionando seus convidados com um harém digno da opulência salomoniana. As prostitutas voltam-se enojadas ante a cena do banquete que presenciam.
- Porcos! - elas gritam.
- Quem são elas para chamar-nos de porcos? - levanta-se enfurecido o jovem filho do dr. Lírico e atira um pombo vermelho sangrando no rosto da primeira da fila. A prostituta, com seus olhos roxos de noites de luxúria, arranca das vestes um urubu vivo e solta na sala. O urubu esvoaça espantado e poucsa no candelabro principal do teto, e saem todos correndo porta afora num vozerio das mariposas que são.
Surge da cozinha um homem negro e alto com uma venda negra nos olhos segurando uma anorme bandeja prateada.
- Ah, a Bíblia!
Dom Romano toma da bandeja um livro preto e lê o versículo: Lucas 12.49: " E Jesus: Eu vim para lançar fogo sobre a Terra e bem quisera que já estivesse a arder.
[Raul Seixas]

